1964-1979: Era Mineirão

1964: Glória e Drama pré-Mineirão

O América deixou escapar a taça do último Campeonato Mineiro antes da inauguração do Estádio do Mineirão após uma surpreendente derrota para o Siderúrgica na última partida do Estadual, quando precisava de apenas de um empate para voltar a ser campeão mineiro, depois de três vice-campeonatos (1958-1959 e 1961) desde a conquista da Tríplice Coroa em 1957. A taça também garantiria o Coelho na disputa da Taça Brasil de 1965, justamente no ano de inauguração do estádio do Mineirão.

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Jair Bala e companhia em ação contra o Siderúrgica pela final do Campeonato Mineiro de 64.

Equipe com mais vitórias na competição (15), o Coelho era o grande favorito à taça não apenas pela melhor campanha do certame, como também pelo belo futebol apresentado durante a competição. Na Alameda ou no Independência, o Coelho brilhava entre o talento de Jair Bala e os dribles de Dario Alegria e até chegou a golear o Atlético por 5×2 naquele mesmo ano. No banco de reservas, o América ainda contava com pratas da casa do nível de Amaury Horta, meia com passagem pela concorrida Seleção Brasileira do fim dos anos 60, ou Dirceu Alves, que foi titular do Corinthians por mais de meia década. Uma geração de craques se apresentou para o futebol brasileiro a serviço do América em 64 e por isso o time era tido como grande favorito ao título.

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Time vice-campeão estadual de 1964. Em pé: Klebs, Catocha, Zé Horta, Zé Ernesto, Murilo e Zé Emilio Agachados: Saci, Luizinho, Jair Bala, Dario Alegria e Sérgio.

O time americano de 64 tinha qualidade de sobra pra ser campeão mineiro, e poucos apostavam que a equipe do interior, campeã de apenas um estadual até então, realmente pudesse surpreender. Mas o Siderúrgica escondia alguns talentos rumo ao bicampeonato, como o técnico Yustrich, tão vitorioso por América e Atlético, comandando a equipe no banco de reservas.

Apesar do América ter mandado a maioria de suas partidas no estádio do Independência durante a competição, o palco da decisão foi a antiga Alameda, saudosa casa alviverde, completamente dominada e abarrotada por americanos, que vinham de todos os cantos de Minas Gerais para acompanhar a decisão.

O Coelho colocou “meia-mão” na taça ao abriu o placar ainda  no primeiro tempo. Muitos já davam a fatura como resolvida quando o Siderúrgica empatou a partida, causando certa apreensão. Mesmo assim, o resultado ainda garantia a taça americana. No entanto, para surpresa geral, o time de Sabará virou a peleia, e ainda teve tempo para fazer o terceiro e sepultar de vez a festa alviverde. Para o desalento geral da Alameda, um time da capital perdia uma final para uma equipe de fora pela primeira vez desde 1950, quando o Atlético foi derrotado pelo Villa. Foi a primeira vez na história que o América perdeu um título para uma equipe de fora de BH.

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A despeito da qualidade da equipe do Siderúrgica liderada por Yustrich, o “oba-oba” dos americanos parece ter sido o verdadeiro obstáculo do Coelho rumo ao título, já que não apenas torcedores, como também imprensa e talvez até jogadores, subestimaram a equipe do interior mais do que o devido, como o próprio Jair Bala já admitiu durante algumas entrevistas.

A derrota custou caro, não apenas à taça, como também o direito de participação na Taça Brasil de 1965, justamente no ano de inauguração do monumental Mineirão, o que significaria visibilidade em nível nacional e uma grande oportunidade histórica para o Coelho.

Mesmo assim, o vice não pode apagar a qualidade daquela talentosa geração americana, que novamente levou o Coelho ao topo das disputas do futebol mineiro. Afinal, para o bem ou para o mal, já era a quarta grande decisão do clube desde a conquista da Tríplice Coroa de 57.

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O Siderúrgica, comandado pelo lendário treinador americano Dorival Yustrich, surpreendeu o Coelho em pleno estádio da Alameda para levar o título de 1964. (Reprodução: Super Esportes)

O MELHOR DE TODOS OS TEMPOS

Apesar do vice-campeonato, 1964 guarda o melhor de Jair Bala com a camisa americana. Naquele ano, o craque foi o artilheiro do Campeonato Mineiro ao marcar nada menos que 26 gols, mesma marca do tricampeão do mundo Tostão em 1968. O número é ainda mais expressivo se contar o fato que apenas 5 jogadores durante os mais de 100 anos de Campeonato marcaram mais gols que o antigo craque americano no estadual de 64. A façanha também consagrou Jair Bala como o maior artilheiro do América e do estádio Independência em uma edição do Campeonato Mineiro. O craque recebeu  o prêmio de melhor jogador do ano segundo o jornal “O Estado de Minas” em razão das belas atuações no Estadual.


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Jair Bala foi o artilheiro do Campeonato Mineiro de 1964, com 26 gols. (Reprodução: Super Esportes)

O controverso fechamento provisório dos Juniores

Ainda no trágico ano de 1964, tão infeliz para o América e que também marcou o início da ditadura militar no Brasil, um dirigente do clube encerrou as atividades do departamento de juniores sem o consentimento do alto escalão administrativo e deu “passe livre” para todos os jogadores americanos da equipe juvenil em função de problemas financeiros. Com a lamentável atitude do dirigente, o Coelho deu adeus a joias raras do futebol mineiro, como Tostão, Hilton de Oliveira e Vanderlei, que receberam contratos assalariados do Cruzeiro e participaram de forma efetiva da época de maior ascensão na história da equipe rival.

1965: Vice-campeão estadual

Vice-campeão estadual

O GIGANTE DA PAMPULHA 

Após quatro anos de obras, Belo Horizonte inaugurou o Estádio Municipal Magalhães Pinto, mais conhecido como estádio do Mineirão, em setembro de 1965. Situado no bairro da Pampulha, o campo já teve capacidade para abrigar mais de 100 mil torcedores, embora sua capacidade atual seja de pouco mais de 60 mil. O setor 13 do estádio foi tradicionalmente reservado a torcida americana.

A construção imponente transformou o futebol mineiro durante a década de 1960 e 70, que recebeu cada vez mais destaque nacional a partir de então. O jogo de inauguração do monumental estádio foi no dia 5 de setembro de 1965, durante a vitória da Seleção Mineira por 1×0 sobre o River Plate. Dois americanos atuaram durante a partida: o craque Jair Bala e o atacante Geraldo – ambos entraram no segundo tempo para agradar a torcida do Coelho.

O primeiro gol da história do estádio foi marcado por José Roberto Bougleau, mais conhecido como Buglê, então jogador do Atlético, mas que também teve passagem pelo Coelho, entre 1974-75.

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Primeiro jogo da história do estádio do Mineirão, entre a Seleção Mineira de Futebol e o River Plate. Os atacantes Jair Bala e Geraldo representaram o América na partida. (Reprodução: Veja-Abril)

O PRIMEIRO CAMPEONATO DA ERA MINEIRÃO

Durante o primeiro Estadual disputado no estádio do Mineirão, o América foi novamente vice-campeão mineiro, completando um trágico ciclo de cinco vices desde o último título em 57.

Em contraste com a alta frequência em decisões, o mau desempenho em finais acabou tendo um forte impacto histórico. Sem condições de segurar os jogadores valorizados, quatro dos principais craques americanos daquela geração se despediram para depois brilhar pelo resto da país: Enquanto Jair Bala, Dario Alegria e Dirceu Alves se destacavam por equipes do futebol paulista, Amaury Horta virou ídolo do Atlético-MG e se firmou como um dos principais jogadores do Estado.

Além disso, graças ao título sobre o América, o Cruzeiro deu início a uma série pentacampeã estadual e recebeu o direito de participação na Taça Brasil de 1966, quando foi campeão sobre o Santos. Tudo que supostamente poderia ser evitado caso o Coelho fosse campeão em 1964 ou 65.

Com o time bi finalista desmantelado e marcado pelo azar em finais, o Coelho estreou com o pé esquerdo os primeiros anos da “Era Mineirão”, enquanto o Cruzeiro se preparava para viver a melhor fase de sua história, o que logo provocaria uma brusca mudança no curso histórico do futebol mineiro.

1966-69: Resistência

Os primeiros anos da Era Mineirão, tão determinantes para a “nova forma” que assumiu o futebol local, foram desafiadores para o América. Marcado pelo azar de 5 vice-campeonatos desde o último título em 1957 e assolado por crises financeiras e administrativas, o clube sofreu para acompanhar o momento de ascensão de seus rivais locais, durante uma época de importância histórica para o futebol mineiro.

É certo que o azar americano em contraste com o bom desempenho de rivais como o Cruzeiro, primeiro campeão nacional de Minas Gerais em 1966, acabou por ser decisivo para a grande queda de torcedores alviverdes durante o decorrer da década de 1970 e 80. Sabe-se que após o quinto vice-estadual do clube desde a conquista da tríplice coroa de 1957, muitos mineiros que eram alviverdes viraram a casaca para o azul, enquanto uma nova geração de torcedores achou mais atraente e cômodo torcer pelos novos títulos da equipe celeste, do que para a tradição e resistência do América.

Apesar de jogadores como Pedro Omar ou os artilheiros Samuel e Ferreira, o Coelho perdeu muito em competitividade ao não conseguir se recuperar dos desmanches de 1961 e 65: Primeiro,  perdeu craques como os artilheiros Gunga, Zuca e o goleiro Jardel, e depois, saíram Jair Bala, Amaury Horta, Dario Alegria e Dirceu Alves. Além disso, o Coelho também deu adeus a diversos jovens valores como Tostão, Hilton de Oliveira e Vanderlei quando encerrou as atividades do departamento de juniores do clube em 1964. Certamente, essa safra de jogadores poderia ter contribuído no fortalecimento da dinastia americana da década de 60. Mas, pelo contrário, o Coelho perdeu seus craques um a um e, enquanto a primeira metade da década ficava marcada pela alta frequência do clube em decisões, a segunda metade ficou marcada pelo afastamento.

Dessa forma, sem time e sem dinheiro, o Coelho não encontrou alternativa se não assistir ao primeiro lampejo da hegemonia entre Cruzeiro e Atlético, que decidiram o estadual durante cinco vezes consecutivas pela primeira vez durante a segunda metade da década, entre 1966 e 1970. O azar pós-inauguração do Mineirão foram determinantes para o Cruzeiro alcançar maior destaque nacional que o América e superar o Coelho em número de torcedores durante meados dos anos 70.

Com a consolidação do Cruzeiro em nível estadual e nacional, o América sofreu um grande golpe histórico, quando perdeu visibilidade, a condição de maior rival do Atlético e, principalmente, boa parte de seus torcedores, deixando de ser a segunda maior torcida do Estado a partir desse período. O Mineirão acabou se tornando o grande símbolo do clássico entre Cruzeiro e Atlético justamente por essa razão – porque foi o exato momento em que o América se distanciou dos seus principais rivais da capital em números de torcedores e títulos estaduais.

Durante os anos que implantaram a hegemonia de Cruzeiro e Atlético no Campeonato Mineiro, o deca-campeão penou, mas sobreviveu de cabeça erguida, levando a tradição como principal força. Com o estandarte de um passado vitorioso a seu favor, pouco a pouco, o Coelho aprendeu a se renovar, deixando de ser candidato a maior campeão do Estado, é verdade, mas sem antes se tornar um símbolo de tradição, resistência e redenção. Em 1971, quando ganhou seu primeiro título no Mineirão, o Coelho provou que, entre derrotas e vitórias, será sempre um gigante do futebol mineiro, naquele que seria apenas o primeiro lampejo do espírito de redenção que tomaria conta da história da equipe desde então.

Mangabeira anos 60

Uma charge do torcedor americano Mangabeira, criador dos mascotes dos principais clubes mineiros, retrata as dificuldades do clube no fim da década de 60 com o início da hegemonia de Atlético e Cruzeiro.

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Mineirão lotado para acompanhar clássico entre América e Atlético em 1969. Apesar de todas as dificuldades, o Coelho jamais perdeu o espírito de valentia em clássicos. (Reprodução: Super Esportes)

1970: Abacate Atômico

COELHO VERDE-NEGRO

Em 1970, o América trocou de presidente: Quem assumiu o posto foi o deputado Ruy da Costa Val, antigo goleiro americano e vice-presidente da gestão anterior. Ruy do Val fincou raízes duradouras e dois de seus filhos viriam a atuar como gestores do clube: Olímpio Naves (eleito vice-presidente em 2009) e Eduardo Naves (que participou ativamente do processo diretivo durante a década de 90 e 2000).

Como sinal dos novos tempos, uma das primeiras medidas do novo presidente foi encomendar a concepção de uma camisa exclusivamente americana, diferente de qualquer outro clube do país. Os artistas plásticos bateram a cabeça, mas o resultado foi à altura: nascia a camisa verde-negra, considerada por muitos a mais bonita do Brasil.

A nova camisa trouxe sorte à equipe, que voltou a ser campeão estadual um ano depois do lançamento do novo uniforme. O sucesso do modelo foi tamanho que a camisa do América foi a terceira mais vendida no Estado de São Paulo, em 1970, ano de seu lançamento. Em 1973, o uniforme verde-negro chegou a ser eleito “o mais bonito do país”, após pesquisa promovida pela revista Placar, principal veículo esportivo do país.

Por conta do título conquistado em 71, muitos pensam que foi esse o ano de estreia do novo modelo, mas, na verdade, o “abacate atômico” foi estreado em 1970, após amistoso contra o Nacional do Uruguai, no Mineirão, que terminou empatado (2×2).

FONTE: Enciclopédia do América por Carlos Paiva

Jair Bala em 1971

Jair Bala trajado do modelo verde-negro criado em 1970. A estréia do uniforme, eleito o mais bonito do país em 73, serviu como símbolo da renovação da identidade mineiro-americana. A camisa deu sorte e o Coelho foi campeão estadual invicto um ano após seu lançamento.

1971: Campeão Mineiro Invicto

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Elenco campeão mineiro invicto de 1971.

O primeiro título na “Era Mineirão”

O Coelho conquistou seu primeiro título estadual no Estádio do Mineirão em 1971, quando foi campeão invicto durante uma temporada que ficou conhecida na época como “o ano de ouro do futebol mineiro”: Além de América, campeão estadual invicto, Atlético e Villa Nova foram campeões nacionais pela primeira vez, enquanto o Cruzeiro, pentacampeão estadual dois anos antes, perdeu o sexto título mineiro em sete anos apenas na última rodada. Após 5 vice-campeonatos estaduais e 14 anos sem títulos relevantes desde a Tríplice Coroa de 1957, a conquista significou o renascimento do clube no cenário local.

Apelidado de “Abacate Atômico” em alusão ao novo uniforme verde-negro, estreado um ano antes, o Coelho de 71 quebrou marcas históricas, como o melhor início da história do clube em Campeonatos Mineiro desde o deca campeonato (100% de aproveitamento durante as sete partidas iniciais). Entre os resultados mais marcantes da equipe liderada por Jair Bala, estão duas vitórias sobre o histórico Atlético-MG de Telê Santana, campeão brasileiro pela primeira vez naquele ano (2×1, 1×0). Ao todo, foram 16 vitórias e 6 empates durante 22 jogos.

No entanto, apesar da campanha invicta, o Coelho não teve vida fácil e disputou o título com o Cruzeiro até a última rodada. Após vencer o Uberlândia no Mineirão por 3×2 – com direito a mais um gol de bicicleta de Jair Bala – os americanos tiveram que contar com uma vitória do Atlético contra o Cruzeiro (2×0) na última rodada para ser campeão, em clássico disputado um dia depois, em uma rara oportunidade quando alviverdes e alvinegros uniram forças para evitar o sexto título do cruzeiro em sete anos. Vale lembrar que o favor dos atleticanos foi retribuído em 1979, quando a equipe alvinegra venceu o título estadual graças a uma vitória do América sobre o Cruzeiro por 2×1.

(Clique aqui para saber mais sobre o título estadual de 71)

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Os reis do Mineirão: América campeão invicto de 1971. (Reprodução: Revista Placar)

A VOLTA DOS FILHOS-PRÓDIGOS

O histórico título invicto de 1971 pode ser creditado em grande parte ao retorno de quatro grandes craques do futebol brasileiro ao América após passagem de destaque pelo clube durante os vices-estaduais de 1964 e 1965. Além de Jair Bala, considerado melhor jogador da história do clube, outros antigos ídolos também retornaram para acompanhar Pedro Omar, como Amaury Horta, Dario Alegria e Dirceu Alves. Confira:

Jair Bala: Considerado o melhor jogador da história do América, Jair Bala havia sido o artilheiro do Campeonato Mineiro de 1964 ao anotar nada menos que 26 gols, marca superada por apenas 5 jogadores na história da competição, quantia que permanece como um recorde individual de gols do América e do estádio do Independência em apenas uma edição do Campeonato. Depois de brilhar por equipes como o Santos de Pelé, Jair Bala retornou ao Coelho em 1971 para novamente ser artilheiro e melhor jogador da competição, mas dessa vez sem deixar escapar o título. Reza a lenda que Jair Bala marcou 5 gols de bicicleta durante a competição.

Dario Alegria: Depois brilhar pelo América como um dos principais parceiros de Jair Bala no ataque da equipe, Dario Alegria fez sucesso pelo Palmeiras e foi um dos grandes ídolos da “Academia” dos anos 60 antes de retornar para ser campeão invicto em 1971.

Amaury Horta: Amaury Horta foi um dos principais meio-campistas do futebol mineiro durante os anos 1960 e 70: Ídolo de América e Atlético, o antigo craque acumulou passagens na disputada Seleção Brasileira do fim da década de 60, entre 1967 e 69. Prata da casa do América, Horta foi campeão mineiro invicto em 71 pelo clube, vice-campeão estadual em 64 e 65, além de participar do primeiro título nacional da história do América em 1997 como diretor de futebol.

Dirceu Alves: Dirceu Alves ficou famoso pela dupla formada ao lado Rivelino no meio-campo do Corinthians, onde foi titular por quase cinco anos (1965-1969). No entanto, apesar do bom futebol, Dirceu Alves não venceu nenhum título pelo clube paulista, que chegou a ficar 23 anos sem ser campeão. Apesar do talento, o meia teve que esperar anos para vencer o primeiro título de sua carreira vez, sendo campeão apenas em 1971, já como veterano, ao ser campeão mineiro durante seu retorno ao América.

O PRIMEIRO BRASILEIRÃO DA HISTÓRIA

O América esteve entre os 3 clubes mineiros e os 22 clubes brasileiros que participaram do primeiro Campeonato Brasileiro da história em 1971, fazendo parte de um momento histórico do futebol brasileiro. Cotado a uma boa campanha após o título mineiro invicto, o América demorou para curar a ressaca da taça estadual e acabou não indo bem na competição (décimo nono colocado), mas ao menos conquistou o direito de permanecer na Série A, ao cumprir o número mínimo de torcedores por partida exigida pela CBD.

Placar revista 1971

“SEU NOME É O SHOW!’

O melhor do Brasileirão de 1971 foi a estreia do ídolo Juca Show com a camisa do clube e as poucas partidas que o craque fez ao lado de Jair Bala.

Segundo a lenda, o América comprou o passe de Juca Show após contribuição financeira direta dos torcedores, que fizeram uma “vaquinha” para contratar o jogador após a bela apresentação do craque durante a penúltima rodada do Campeonato Mineiro: Naquela ocasião, Juca liderou o inesperado empate do Fluminense de Araraguari (1×1) contra o América, resultado que dificultou a vida do Coelho na competição e quase rendeu um vice estadual invicto.

Os torcedores provaram estar certos sobre o talento de Juca e o craque brilhou pelo América entre 1971 e 73, ao ponto de ser considerado um dos melhores jogadores da história do clube mesmo sem vencer nenhum título. Como reconhecimento pelos serviços prestados ao América, Juca Show possui os pés marcados na calçada da fama do estádio do Mineirão.

Juca Show

Juca Show foi contratado pelo América em 1971 após uma vaquinha dos torcedores do clube.

1972: O triste fim da Alameda

Terceiro colocado do Estadual
Vigésimo segundo colocado do Brasileirão da Série A

O SONHO DA VILA OLÍMPICA E A TRÁGICA VENDA DA ALAMEDA

Em 1972, o América anunciou a venda do tradicional e nostálgico estádio da Alameda, dando adeus a um dos palcos mais tradicionais do futebol mineiro, onde foi campeão pela primeira vez desde o deca-campeonato. Extremamente bem situado às cercas da região central de Belo Horizonte, o campo já estava penhorado faziam anos, sendo usado apenas para treinamentos das equipes juvenis e profissional, além de demais comodidades. Mesmo assim, ainda era um dos grandes redutos da tradição mineiro-americana, e seu fim foi um duro golpe sobre a identidade do clube.

Em substituição ao antigo estádio, o América anunciou a construção de uma Vila Olímpica, mas o projeto nunca saiu do papel, e até chegou a ser copiado pelo rival atleticano no futuro. O dinheiro da venda da Alameda foi reutilizado com a aquisição dos terrenos de Santa Efigiência, Vale Verde e Três Barras, além de ter sido investido, em parte, na histórica equipe de 1973, vice-campeã estadual e sétima colocada na elite nacional.

Com o fim da sede social e do estádio da Alameda e sem a construção da tal da “Vila Olímpica”, o América perdeu a disponibilidade de promover esportes olímpicos e deu adeus a um dos maiores centros esportivos do Estado, já que o patrimônio do novo clube social na Pampulha (construído em 1975) não se comparava em tamanho e qualidade ao antigo terreno da Alameda. O Coelho perdeu piscinas, pistas de atletismo e quadras de basquete e vôlei de padrão olímpico.

Dessa forma, a venda da Alameda para a construção de um supermercado foi muito questionada pelos torcedores americanos, mas como os acordos foram feitos sob a articulação de alguns dirigentes de herança militar com um governo estadual dominado pela ditadura, os protestos foram amplamente reprimidos e silenciados, ao ponto de um jornalista americano ser preso pelo regime militar, após a publicação de uma reportagem questionando a controversa venda do lendário estádio.

FONTES:
Enciclopédia do América por Carlos Paiva
Torcida Desorganizada Avacoelhada

1973: A melhor campanha da história

Sétimo Colocado no Brasileirão da Série A
Vice-campeão Estadual 

VICE-CAMPEÃO MINEIRO E SÉTIMO NA SÉRIE A DO BRASILEIRÃO

Parte do dinheiro da venda do estádio Alameda foi reinvestido na famosa equipe mineiro-americana de 1973, marcada pela melhor campanha do clube na história do Campeonato Brasileiro da Primeira Divisão e pelo vice-campeonato estadual.

A esquadra de 1973 marcou época e ficou conhecida como uma das melhores da história do clube. Naquele ano, o América foi um real candidato ao título brasileiro da Primeira Divisão, e só não foi mais longe porque demitiu o identificado treinador Orlando Fantoni, (penta-campeão estadual por clubes de Estados diferentes) no meio da competição. Entre os principais jogadores americanos daquele ano, estão o elegante Pedro Omar (único jogador da história do América a conquistar o prêmio Bola de Prata da Placar), o lendário Juca Show (“O Novo Didi”, segundo o Mestre Nelson Rodrigues), e o goleiro Neneca (campeão brasileiro pelo Guarani),  além do artilheiro Cândido, maior goleador do América em uma edição do Brasileirão (15 gols). Ao fim, aquela grande equipe do Coelho terminou a competição em sétimo lugar.

BRASILEIRÃO 73: PRIMEIRA FASE

O América terminou a primeira fase do Brasileirão de 1973 na quinta posição, igualado em pontos com o Santos de Pelé, quarto colocado.

Apresentando um belo futebol, a equipe americana acumulou apenas uma derrota nos 8 jogos finais da primeira fase. Foi a deixa para o popular treinador Orlando Fantoni pedir aumento salarial para a diretoria americana. Ultrajada, a direção negou o pedido de aumento e o técnico saiu dizendo que faria aquele time ser campeão brasileiro. Certamente, desperdiçar um técnico qualificado e identificado foi um dos fatores que explicam a queda de rendimento do Coelho no meio da fase seguinte.

Depois de deixar o América, o qualificado Orlando Fantoni conquistou 5 Campeonatos Estaduais diferentes pelo Brasil. Barbatana, ex-jogador de muita identificação com o Atlético, foi quem assumiu o leme restando apenas 2 partidas para o término da primeira fase. No futuro, Barbatana seria o treinador do histórico time atleticano vice-campeão brasileiro invicto em 1977, mas não atingiu o mesmo sucesso pelo Coelho em 1973, até em função da forte identificação com o maior rival do clube.

BRASILEIRÃO 73: SEGUNDA FASE

Com a quinta colocação em um Campeonato de 63 equipes, o América se classificou com sobras para a segunda fase do Brasileirão de 1973, dividida em dois grupos de 10 clubes. Cada grupo oferecia duas vagas ao quadrangular final que enfim decidiu o campeão.

O Coelho encantou o país no início da segunda fase, disputada apenas nos primeiros meses de 1974, sendo a única equipe do país com 100% de aproveitamento nas 3 primeiras partidas, desempenho que garantiu a liderança provisória do grupo I e o sonho de estar entre as 4 equipes que decidiriam a competição.

Na primeira rodada, o Coelho calou o Maracanã com uma virada histórica sobre o Vasco da Gama por 2×1. Nessa partida, brilhou a estrela de Juca Show, que não se intimidou com a torcida adversária que dominava o estádio em massa e encantou todos presentes com um gol e uma série de dribles constrangedores. Juca jogou tanta bola nesse jogo, que verdadeiras lendas da imprensa esportiva brasileira se renderam ao futebol do craque após a partida, como João Saldanha, Nelson Rodrigues, Armando Nogueira e Zagallo.

No dia seguinte à  vitória, João Saldanha publicou uma coluna sobre o jogo batizada de “seu nome é o show”. O botafoguense João Saldanha, jornalista e antigo treinador da Seleção Brasileira, admitia ser torcedor do Coelho em Minas. Já Mestre Nelson Rodrigues clamou Juca como “o novo Didi”, enquanto o eterno Armando Nogueira exigia sua convocação para a Copa do Mundo de 1974 por parte do treinador Zagallo. O apelo de mídia e torcedores quase funcionou, já que o meia chegou a fazer parte da lista de pré-convocação para o Mundial de 1974. Nessa época, Zagallo chegou a visitar os jogos do América para vistoriar o futebol de Juca Show e outros craques americanos como o lendário goleiro Neneca e o meia Pedro Omar, que recebeu a Bola de Prata da Revista Placar como melhor volante da competição.

Na segunda rodada, o América chamou ainda mais atenção ao golear o Ceará com autoridade no Mineirão: 4×1, fora o baile. Na sequência, viajou ao Piauí para vencer o Tiradentes por 2×0, acumulando 3 vitórias consecutivas de forma convincente e assumindo a liderança provisória do Campeonato Brasileiro.

Confira um vídeo raro da vitória americana sobre o ilustre Tiradentes-PI em 1973:

O JOGO QUE SELOU UM DESTINO

No jogo de maior destaque da quarta rodada da segunda fase do Brasileirão de 73, o líder América enfrentou o Palmeiras em uma partida equilibrada que definiu destinos no Parque Antártica. Depois de um jogo equilibrado, com o empate pendente até os 10 minutos finais, a equipe palmeirense conseguiu fazer 2 gols nos minutos finais para vencer por 3×1.

O jogo marcou o início da derrocada do antigo líder Coelho e a ascensão do futuro campeão Palmeiras. Caso vencesse, o América manteria a liderança e estaria em ótima posição para classificar-se às finais, já que teria vencido praticamente metade dos jogos previstos.  Mesmo assim, a partida caiu nas graças da imprensa e torcedores da época, mediante ao belo futebol apresentado por ambas as equipes. Reza a lenda que Ademir da Guia e Didi chegaram a pedir para um endiabrado Juca Show “maneirar em campo” durante a forte pressão do Coelho, que por pouco não fez o segundo gol.

O ADEUS

Após a derrota para o Palmeiras, o América estaria fadado a duras decepções durante o restante da competição. No clássico contra o Atlético-MG de Telê Santana, pela quinta rodada, o Coelho até jogou bem, mas perdeu de 2×1, com um gol de Reinaldo no segundo tempo. Mas a equipe reagiu com uma vitória apertada sobre o Corinthians na rodada seguinte (1×0), mantendo acesa a chance histórica de decidir o Campeonato Brasileiro. Naquele momento, o Coelho era o terceiro colocado de seu grupo, que oferecia duas vagas ao quadrangular final.

Na sétima rodada,  o América viajou ao Beira-Rio para encarar o Internacional, em um confronto direto pela vaga na fase final. O jogo foi equilibrado, mas, fatidicamente, um gol de Escurinho, aos 33 minutos do segundo tempo, dificultou a vida do Coelho, que perdeu pelo placar mínimo.

Mas as chances de classificação do América ainda eram concretas na penúltima rodada, quando a equipe recebeu o Coritiba em casa. No entanto, naquele dia, quis os astros que o América conhecesse sua segunda derrota como mandante durante toda competição: 2×1 para os paranaenses. Era o fim de um sonho. Na última rodada, já sem chances de classificação, um Coelho abatido se despediu do campeonato após empate por 2×2 contra o Bahia, ficando na terceira colocação de seu grupo, atrás apenas de Palmeiras e Internacional, equipes classificados para o quadrangular final.

UMA HISTÓRIA SEM FINAL FELIZ

Nem toda grande história acaba com um final feliz. Por míseros 3 pontos, uma das melhores equipes da história do América perdeu a chance inédita de participar do quadrangular final do Brasileirão. Não foi por falta de qualidade, não foi porque a equipe não tinha condições de alcançar a vaga,  mas sim por pequenos erros de planejamento, como a demissão do identificado e qualificado Orlando Fantoni, tão querido por torcedores e jogadores, no meio do Campeonato.

Certo é que se o destino fosse um pouco mais gentil com o Coelho, a façanha de 1973 seria ainda mais lembrada. Com o segundo melhor ataque do grupo 1 (13 gols em 9 jogos, atrás apenas do ataque campeão do Palmeiras, que marcou 15 gols) e com o mesmo número de vitórias que o Internacional (time classificado para a fase final), a equipe americana se despediu da competição no sétimo lugar, a melhor colocação da história do clube.

A boa campanha chamou a atenção, e a diretoria não conseguiu manter o elenco valorizado. O América perdeu alguns de seus maiores astros, como o goleiro Neneca, e os meias Juca Show e Pedro Omar, que seguiram o ex-treinador Fantoni rumo a Pernambuco, para atuar no Náutico. Essa geração mineiro-americana provou que sabia mesmo jogar bola e alcançou resultados imediatos pelo clube de Recife, que foi campeão estadual em 1974 após 7 anos, muito graças a participação notável dos quatro antigos americanos em seu plantel.

MIGRAÇÃO PARA CONTAGEM

Com a renda obtida a partir da venda do estádio da Alameda, o América comprou um terreno em Contagem, onde alocou sua nova sede administrativa. Dessa forma, o clube perdeu mais um pedaço de sua identidade ao migrar provisoriamente de município, deixando de ser um clube assentado em Belo Horizonte por um breve período, embora ainda mandasse seus jogos na capital.

O processo desviou alguns americanos do processo diretivo e recebeu muitas críticas à época. A migração fazia parte do projeto de criar uma base americana no município de Contagem, onde o América, supostamente, abrigaria seu novo estádio.

SANTA EFIGÊNIA

O Coelho também investiu em um terreno no bairro de Santa Efigênia, tradicional região americana. Sem conseguir fazer valer a ocupação, o terreno foi invadido por sem-tetos. Com o tempo, o terreno foi vendido para empresas e residências privadas.

1974: Retorno à capital

A SEDE DA PAMPULHA

A partir da aquisição de um terreno no bairro de Pampulha, o América promoveu sua esperada volta a Belo Horizonte. A cerimônia que comemorou a inauguração da nova sede social do clube às cercas do estádio do Mineirão e da lagoa da Pampulha foi histórica, e contou com a presença do antigo Governador do Estado, Rondon Pacheco, além do arque-bispo de Belo Horizonte, Dom João de Resende. Depois de muitas críticas por parte de torcedores em razão da venda da Alameda, finalmente a administração do Coelho estava de volta a cidade onde nasceu e nunca mais saiu. Mas o clube saiu no prejuízo e o terreno era mais modesto em relação ao da Alameda. Desde então, o clube perdeu a disposição em promover a prática de esportes amadores e olímpicos, área onde sempre teve muita força e tradição, já que perdeu a piscina olímpica e as pistas de atletismo. Vale lembrar que, no passado, o Coelho enviou o primeiro mineiro campeão olímpico de atletismo e promoveu as primeiras partidas de basquete em MG.

JOGADORES HISTÓRICOS

Em 74, o América contou com três jogadores históricos do futebol brasileiro em seu plantel, talvez como forma de responder às críticas pela venda da Alameda e as transferências de Juca Show, Pedro Omar, Neneca e Orlando Fantoni, que foram para o Náutico.

O primeiro a chegar foi Buglê, autor do primeiro gol da história do Mineirão. Depois quem veio foi Afonsinho, o craque-rebelde da década de 70, ícone da luta pelos direitos dos atletas e símbolo da resistência durante os anos de ferro da ditadura militar. Ambos os jogadores chegaram a atuar ao lado de Éder Aleixo, futuro integrante da Seleção Brasileira de 1982 e grande joia da base americana nos anos 70.

1978: Crise

Sétimo colocado no Campeonato Mineiro

Sexagésimo oitavo no Campeonato Brasileiro da Série A

A PIOR CAMPANHA NO BRASILEIRÃO

Em crise administrativa, um dividido América, com pouco apoio financeiro, amargou em 1978 a sua pior colocação na história do Campeonato Brasileiro da Série A, quando ficou em 68 colocado em um estranho Campeonato de 74 participantes.

1979: Breve adeus à elite

RETRIBUIÇÃO POR 1971

Em 1979, o Atlético foi campeão estadual graças a uma vitória do América sobre o Cruzeiro na última rodada. O triunfo foi visto como uma espécie de retribuição pelo favor atleticano de 9 anos antes, quando o rival venceu o Cruzeiro para selar de vez o título invicto do Coelho.

Curiosamente, Jair Bala, artilheiro e craque do título dde 1971, foi o técnico da campanha de 1979, o que fez com que a vitória tivesse ainda mais esse caráter de retribuição. Além disso, os jogadores americanos receberam um bicho de 120.000 Cr$ da diretoria rival como recompensa pela vitória. Confira no vídeo abaixo:

FONTE: Globoesporte

O ADEUS A SÉRIE A

Após 9 participações consecutivas no Campeonato Brasileiro da Primeira Divisão, o América se despediu da competição em 1979, após ficar na 36a colocação, princopalmente em razão da grande crise administrativa que o clube viveu entre 77/78. No entanto, vale lembrar que, entre 71-79, contou o maior período de permanência do América na Série A Nacional.

O Coelho só voltou à competição em 1992, prejudicado pelo critério técnico que passou a vigorar a partir do ano seguinte, quando as classificações nos Estaduais definiam os participantes dos Campeonatos Nacionais.

Ao Estado de Minas Gerais, foi reservado apenas duas vagas na Taça de Ouro, equivalente à Primeira Divisão, e duas vagas na Taça de Prata, equivalente à Segundona, enquanto ao futebol paulista e carioca eram dedicados 5 lugares cada um na divisão principal.

Como o América ficou entre a terceira e quarta posição do Campeonato Mineiro durante dez anos consecutivos (1975-85), o clube garantiu seu lugar na Taça de Prata de 1980 a 1985, mas ficou afastado da divisão principal. Em 1986 e 89, o clube não ficou entre os 4 melhores do Estadual e disputou a Série C pelas duas primeiras vezes na história.